O tempo passou e chegou o dia da inspeção. Eu acreditava que seria liberado naquele mesmo dia. Levei vários documentos de colégio, trabalho, etc., para comprovar que eu tinha tudo isso. Nesta inspeção é feito um teste de visão. Eu poderia ter mentido que não usava óculos, mas não o fiz, e por causa disso eu não tinha mais o argumento da falta de visão; mas ainda me restavam dois argumentos, o da bolsa de estudos e o da hipoglicemia. Eu havia levado vários documentos comprovando várias coisas, menos o de que eu tinha hipoglicemia. Parecia que era pra eu ir pro exército mesmo, pois sempre faltava uma coisinha importante e neste caso faltou um comprovante pra apresentar ao médico se eu tivesse com ele em mãos eu seria dispensado. Não teve outra! Perdi mais esse argumento, mas ainda me restava o da bolsa de estudos, que eu apresentei ao sargento que me entrevistou. Mas ele nem considerou muito e não teve efeito nenhum. Eh, eu teria mesmo que ir para o exército!
Comecei então a reclamar de Deus, pois eu havia feito tudo certo e esperava que Ele fosse me ajudar a ser dispensado. Como se não bastasse esse problema, outra bomba explodiria: meu pai fora demitido e ainda de brinde, ele ficou doente. Ele estava muito agressivo. Até mesmo o casamento dele e da minha mãe estava meio comprometido. Foi um grande abalo pra família. Descobrimos que ele estava com depressão, devido a problemas de infância que só agora vieram à tona. Mas graças a Deus a situação está controlada! Mas você percebeu? Durante todo esse tempo eu fiz tudo corretamente, sempre pedindo a Deus que me ajudasse, mas aparentemente ele cada vez me esquecia, até porque eu via as pessoas que trapaceavam conseguir o que queriam e eu que fazia tudo certo só me dava mal. Além de tudo isso eu ainda tinha que ouvir as pessoas ao meu redor dizendo: "Por que você não se alistou em Eldorado do Sul? Se você tivesse se alistado lá já estaria liberado".
Mas uma coisa ainda me deu uma pontinha de esperança! No final da inspeção, o sargento falou que haveria a possibilidade de dispensa se acontecesse alguma coisa até o dia do embarque, 26 de Fevereiro deste ano. Novamente se acenderam as esperanças e começamos a correr atrás de mais algum motivo para eu ser liberado. Primeiro tentamos o atestado médico que havia faltado no dia da inspeção, mas o médico disse que não adiantava, porque hipoglicemia não era considerada uma doença que impedisse de servir, pois se resolvia até mesmo com uma bala. Mais uma vez nossa tentativa foi frustrada. Mas surgiu mais uma possibilidade. Ficamos sabendo que a prefeitura poderia requerer a dispensa. Então corremos atrás do responsável que confirmou o que ficamos sabendo, mas infelizmente era tarde demais, pois o intermédio da prefeitura só teria efeito antes da inspeção. Um amigo meu, o Armando, se prontificou a tentar junto comigo a tão desejada liberação do serviço militar. Ele foi até o comando geral em Porto Alegre para saber como eu poderia ser liberado. Mas justamente nessa época o Brasil e a Bolívia estavam entrando em atrito por causa do gás natural e outros motivos (você deve ter visto isso na TV). O comandante disse que por causa disso era difícil uma liberação, até porque o exército estaria se preparando para um eventual conflito e precisaria da disponibilidade do máximo possível de militares. Bem, depois de tudo isso a única coisa que me restava era fazer as malas, pois não teria jeito de eu ser dispensado.
Que tempo terrível. Nada dava certo pra mim! Puxa, onde estava Deus, eu me perguntava. Mas bem, no meio de toda essa crise algo de bom aconteceu. Mais uma vez, com uma forcinha da minha amiga Camila, eu consegui um emprego em uma serigrafia. Eu já não tinha muitas expectativas, pois em aproximadamente um mês eu perderia o emprego, a bolsa de estudos, etc., pois já estava chegando o dia do embarque.
Mais uma vez, o meu amigo Armando me deu mais uma esperança. Eu poderia argumentar que estava trabalhando e que era uma boa oportunidade profissional difícil de ser obtida. Ele então reuniu novamente todos os documentos que eu tinha, inclusive os que eu já havia apresentado na inspeção e o atestado médico do meu pai, comprovando que ele estava impossibilitado de trabalhar. E novamente, por causa de um detalhe, deu quase tudo errado. Eu precisava de um atestado, comprovando que eu tinha um emprego. O Armando iria novamente até o mesmo comandante que ele havia visitado há um tempo atrás em busca da última tentativa de conseguir a minha liberação. Mas não consegui a declaração a tempo, pois o meu patrão havia saído e ele não pôde assinar o documento. Mas ele foi assim mesmo, sem o documento, que eu só consegui no dia seguinte. Eu quase enlouqueci quando fiquei sabendo teria sido liberado se ele tivesse a tal declaração em mãos. Mesmo sem o documento, o comandante colocou uma observação no meu cadastro, dando uma última chance, mas afirmou que eu teria que ir para o quartel esperar pela decisão do comandante. Novamente parecia que Deus havia me esquecido. Mas mesmo assim eu nunca perdi a fé.
Agora não tinha mais o que fazer. Eu teria que ir até Cachoeira do Sul, onde fica o quartel. Eu estava nervoso, pois faltavam poucos dias para o embarque. Em uma última e desesperada tentativa, minha mãe ligou para o comando do quartel lá de Cachoeira do Sul mais uma vez tentando a minha liberação. Foi um grande passo quando o oficial que atendeu disse que se eu levasse todos os documentos, incluindo a comprovante de que eu estava trabalhando, eu teria 80% de chance de ser liberado. A partir daí Deus começou a responder as minhas orações. Aliás, ele já estava respondendo desde o início, mas nesse momento eu percebi a mão de Deus no controle da situação. E falando em oração, muitas pessoas estavam orando junto comigo. Uma destas pessoas que ficaram algumas noites sem dormir por minha causa foi o Marcelo, um dos editores deste blog. Um dia antes do embarque, ainda antes de dormir, eu fiz uma oração. Não lembro bem como foi, mas lembro que disse: "Meu Deus, a partir daqui é Tu que estás no controle. Por favor, faça o melhor que puder"!
A noite passou e finalmente chegou o grande dia, onde eu começaria uma longa jornada de três dias de angústia até saber o meu destino. Despedi-me da minha família, meus amigos e fui até o ônibus que me levaria até Cachoeira do Sul. Desde o momento em que eu subi no ônibus eu pedia a Deus em pensamento que estivesse o tempo inteiro comigo. Aproximadamente duas horas de viagem depois eu cheguei lá, já quase sem unhas porque eu já tinha roído tudo! Começava definitivamente o drama. Será que eu vou ser liberado ou não? Chegando lá fui encaminhado para a companhia a qual eu faria parte. Era a CEP, Companhia de Engenharia de Pontes. Logo ao chegar lá começou algo que, pra mim seria um pesadelo. Imagine o que é ficar sentado em uma viga de ferro debaixo de uma tenda em um dia quente pra caramba. Detalhe; não podíamos sair de lá sem que algum militar autorizasse. Isso era na segunda feira lá pelas 11hs da manhã. Estávamos indo para o almoço, acho que o pior de todos que eu já fui. O cardápio era arroz, feijão, peito de miniatura de galinha (parecia que era assado com pólvora) e a pior parte, o suco. Eu vi os outros servindo o suco e pela cor achei que fosse suco de guaraná. Quando eu provei o tal suco eu quase cuspi no copo de volta. Parecia um suco de cravo da índia meio quente. Um tempo depois me disseram que era chá mate. O gosto era terrível. Nem sei como eu consegui tomar.